Sunday, May 14, 2017

Quem inventou o Dia das Mães?!

Passavam 5 minutos das 9:00 horas quando André chegou em Santa Rosa para deixar Paulinha na casa de Mônica, sua segunda mulher.
“Sempre atrasado!” exclamou Mônica furiosa pelo atraso. Recomendações, um presente e um beijinho social na sua ex sogra, que jurou não querer vê-lo nem pintado depois da traição, e partiu.
Tomou o caminho da Ponte, acelerando pelo Rebouças a caminho da Lagoa,  sem prestar atenção aos limites de velocidade, até chegar ao 'Selva de Pedra', no Leblon. 
Ali deixou Gustavo, um rapazinho dos seus 12 anos, filho do primeiro casamento, sem antes ouvir:
“O quê que esse garoto está fazendo aqui? Não disse que era para levá-lo para o Andaraí? Agora vou ter de ir com o carro abarrotado de presentes e mais toda essa molecada!” falou se referindo aos filhos anteriores de João, seu atual marido, aos dela com Pedro, um peruano com quem viveu em Machu Picchu, e ao seu com ele.
Resolvida essa parte da missão, deu uma passadinha pelo Flamengo, que era para levar o presente de Aurora, sua ama de leite, a quem tratava como mãe.
Buzinas de um lado, campainha do outro com cobranças mil, quase ia levando uma multa por passar com celular ao ouvido em frente a um guardinha. Mas esse também não estava nem ai, ligado certamente nas cobranças ao telefone de alguma mulher.
“André, não esqueça que mamãe tem hora certa para comer. Sabe como ela é, um relógio quando se trata de comida” disse seu irmão mas velho, tipo o mentor da família, transmitindo a preocupação de todos.
Outro: “Cadê você? Estamos guardando seu lugar na fila da Churrascaria. Vê se não demora!” esse de Fernanda, sua atual companheira, mãe de Cynara e Cibele, filhas dos dois, uma homenagem as meninas do “Quarteto em Cy”.
A Palace fervia, gente pelo ladrão, com a fila quase dobrando a Avenida Atlântica. Quando entregou o carro ao guardador fez a recomendação: "Cuidado que peguei essa semana na concessionária, e ainda não estou com toda documentação regularizada!". 
Ao entrar se deparou de cara com sua atual sogra, uma biriteira das rodas de buraco de Copa, assídua frequentadora do Caranguejo, e dos 'bunda de fora' da Barata Ribeiro. Já tinha tomado umas cinco caipivodkas de Kiwi com adoçante, que era para manter a plástica da sua dieta da terceira idade. Não podia perder o elã dos seus 63 quilos, graças as 35 correções estéticas que fez com a grana que recebeu do falecido, de quem foi corna zilhões de vezes.
“Esse é o genro mais bacana que já tive! Não fosse ele minha apêndice tinha estourado” gritou em alto e bom som, e da maneira mais estridente possível, que era para todo mundo ouvir. André era médico, um Gastroenterologista de mão cheia, com especialização nos States e o escambau, mas que tinha horror a carne. Coisas da medicina ou da modernidade, não sei.
Comeu uns dois sushis no balcão de comida chinesa, uma saladinha de rúcula com palmito, e uns tomatinhos cereja ao vinagrete para disfarçar a fome, olho no relógio. Para não reparem na sua aversão a seres vivos, deu lugar ao olho grande e arriscou num único camarão.
Pelos seus cálculos, se não saísse dali naquele exato momento não ia dar tempo de fazer a oração com a mãe, ritual que a família tinha em todas as refeições desde a infância.
Mil desculpas, beijos, beijinhos para a ‘vó’ das filhas, e um cínico “não esquece de dizer que o xale comprei em Portugal quando estive lá!” recado na Fernanda para a sogra, que nunca fez gosto daquele casamento “com a menina vendedora da Pier”.
Chave na mão, gorjeta na outra, e o carro arrancando célere na direção de Petrópolis. Tinha de chegar as 13:45, horário combinado pelo mentor Carlos com todos da família.
“Que engarrafamento filho da puta é esse!” exclamou quando viu a entrada do Rebouças cheia de carros parados. Arriscou e tomou o caminho do Aterro.
Santa decisão! “Para isso valeu o dinheiro roubado por aqueles safados nas Olimpíadas” pensou.
Tudo ia bem quando aquele bendito camarão vergê da Palace, resolveu dar o ar da sua graça, exatamente naqueles momentos finais do seu périplo materno. Tinha de ser rápido, ou ia ferrar com o estofamento da sua Hyundai zerada.
Parou no Alemão e pôs para fora tudo aquilo que o nervosismo daquela maratona tinha causado, não sem antes receber o telefonema final:
“André! Onde você está cara! Todo mundo aqui esperando e você nada! Já não aguento mais ouvir as histórias da Sofia e da Zoraide! Vê se chega rápido!!!!” uma última e decisiva decisão de Carlos, o mentor. Sofia e Zoraide eram as irmãs do meio, gêmeas solteironas que torravam o dinheiro da pensão do pai militar em viagens as mais estranhas e cheias de “sorte” – Alaska, Egito em plena ‘primavera árabe’, Síria já com o levante em andamento, e por pouco quase atingidas pelos atentados na França.
Finalmente chegou, a mãe aos prantos levantou-se da mesa para um abraço choroso. Tinham acabado de almoçar, e ele perdido o risoto do “Dias das Mães” preparado por Carmela, sua primeira namorada, vizinha de Dona Gilka, a mãe. A dor de barriga tinha atacado de novo e ele teve que parar num posto no meio da estrada para dar uma última cagada.
E foi sentado no vaso do banheiro que teve seu mais preciso pensamento resumindo aquele dia: “Quem inventou o Dia das Mães, não tem mãe!”

#BiradeOliveira

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