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Sunday, September 18, 2011

O Bistronomia Carioca, botequim em casa


Segundo os organizadores do Festival Comida Di Buteco uma das principais características de um verdadeiro boteco é ter o dono a frente do negócio, seja na cozinha ou no atendimento, não só garantindo o potencial culinário do estabelecimento, como também o perfil familiar caseiro. Aqui, um botequim em casa que tem o Chef atrás do balcão. 
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"O botequim em casa BISTRONOMIA CARIOCA se limita a apenas um evento por data, de forma a proporcionar ao cliente um tratamento personalizado, por um preço que certamente ele estará disposto a pagar, para incluir entre seus desejos a deliciosa experiência de comemorar com seus amigos e familiares um momento tão importante da sua vida.
Drinkeria decorada
A concepção de festa do BISTRONOMIA CARIOCA vai além da visão de um simples serviço de buffet, tendo no resgate da culinária brasileira de botequim enquanto gastronomia de bom gosto a sua especialidade.
BISTRONOMIA CARIOCA tenta reproduzir em seu serviço exatamente aquilo que o cliente espera de um bar ou restaurante moderno, com um atendimento que prima pela eficiência e máxima cordialidade.
E para manter a tradição e o pioneirismo de ser o primeiro a levar para as residências, clubes e empresas a verdadeira e original comida de botequim o Chef Byra Di Oliveira possui pessoal de cozinha gabaritado com os apetrechos necessários para execução do BISTRONOMIA CARIOCA durante um período mínimo de 4 horas, e que forma com ele uma equipe de serviço experiente para preparação de toda a comedoria, com pratos e talheres para a degustação.
BISTRONOMIA CARIOCA possui equipe para montagem de drinkeria e bar com chopp e caipirinhas de vodka, cachaça e saquê, e ambientação do local que remete a lembrança que todos tem dos antigos botequins cariocas."
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Foto e texto da divulgação.

Tuesday, June 15, 2010

Canalhice não é cafajestagem

Bob Devasso é um personagem recorrente em minha vida.
Conheci-o nos tempos da faculdade freqüentando os mesmos botecos que eu.
Naquele tempo tentava afogar a covardia de não ser um engajado na luta armada contra a ditadura nas doses de Riopedrense que era moda beber.
De política o Bob fugia como fugia também da mocreia que vivia enchendo seu saco, e com a qual era casado.
Tinha dois filhos lindos o puto, os quais gostava de exibir aos amigos que não saiam da sua casa, onde rolava sempre muita música e cerveja.
Nossa amizade começou a crescer a partir do dia em que eu o levei a um show do Milton, onde o protesto não ficava só nas canções mais também no comportamento.
Acho que foi dai que lhe acrescentei ao apelido a alcunha de 'devasso'. Sentado no chão atrás de uma tremenda gata empatolou-lhe as mãos nos peitos enquanto soltava o vozeirão ao ritmo de "Travessia".
Dormiu no sofá naquele dia e pegou gosto pela devassidão.
Passava madrugadas ao violão cercado sempre de muito papo e sacanagem distribuída nas matinas por drogadas menininhas, para as quais o Bob era um careta pois só gostava de tomar cachaça, conhaque ou cerveja.
Gostassem ou não Bob era um filósofo. Suas sacadas existenciais eram únicas e lhe valiam os aplausos que gostava de receber.
Sujeito de inúmeras virtudes, entre as quais a de implicar comigo me chamando de canalha, se fazia respeitar aos berros com sua voz de tenor. Bastava uma mulherzinha se achegar da mesa de qualquer botequim que a gente sentasse, e ele lançava no ar a maldição “Birão é um canalha!”.
Foi assim, sem explicar por que por muito tempo. Até que apareceu uma zinha por quem me apaixonei e ele derramou mais uma vez os seus minutos de glória.
“Canalha é canalha, não tem moral” disse.
“São capazes de comer a filha, e sem nenhum pudor, comer a mãe. Meu amigo Birão não chega a esse ponto mas é capaz de dispensar a namorada na porta com a outra deitada na cama.” Rubro de vergonha não interrompi.
“E como todo bom canalha Birão não consegue ver na sua frente os costumes, os mais enraizados em nossa sociedade quando se trata de mulher. Não liga para compromisso, relação, aliança, e é capaz de dividir a mesma cama com mais de três.” 
Preste a perder a namorada cochichei no ouvido da moça que a definição cabia mais a ele do que a mim. Mas Bob não estava nem ai para a minha infelicidade. Queria dar seu show, filosofar mesmo que isso lhe custasse a minha amizade. Mas toda grande estrela tem sempre um bom final para sua apresentação, e nessa ele quis demonstrar sua amizade por mim.
“Mas existem os canalhas que ultrapassam essa barreira e se tornam uns cafajestes, e meu amigo Birão, um bom sujeito é apenas mais um canalha”.
A mesa cheia de vagabundos, bêbados e drogados clamava por uma definição. Embora palavras sinônimas qual seria a diferença entre o canalha e o cafajeste na concepção do Bob Devasso?
“O canalha não esconde com quem transou; o cafajeste sai contando para todo mundo. O canalha respeita a lágrima; o cafajeste dá porrada. O canalha adota a tática do cavalheirismo para chegar no alvo; o cafajeste é mal educado, só pensa em si, e é capaz até de cuspir no chão. E por ai vão as diferenças.”
A namorada lascou-me um beijo na boca, toda orgulhosa do canalha que tinha ao lado. E o Bob continuou.
“E o pior cafajeste é aquele que tem dinheiro no bolso. Aquele que agride uma empregada doméstica pensando ser prostituta. Aquele que leva viado para motel, e depois arma um barraco para não pagar, dizendo que nem desconfiava que era. E mais... Que é capaz de enrolar uma pobre donzela suburbana, prometendo casamento só para levá-la para a cama, e depois largar a coitada, apaixonada, na rua da amargura. O canalha lida com o igual; o cafajeste com a diferença. Nenhum dos dois tem alma, mas o cafajeste não tem mãe. E se a tem é dona de um bordel.”
Orgulhoso por não me enquadrar na definição de cafajeste que o Bob encontrara fui para a cama com a burguezinha que viria a ser minha futura mulher.

Sunday, June 6, 2010

Na sordidez de um boteco

Boteco chinfrim aquele.
Mesas e cadeiras enferrujadas misturadas a um monte de engradados de cerveja encostados num canto.
No balcão, uma pequena vitrine com três coxinhas de galinha de anteontem. Dava para sentir quão frias e geladas estavam, já que o ambiente de quente só tinha a cachaça.
Nada ali lembrava a elegância e o charme do botequim da praia de onde ele tinha saído, e enchido a cara cheia dos números da reunião de negócio.
O pneu do carro havia estourado, e a barriga arrebentando da farta comida do almoço. Tinha que botar para fora.
Antes de entrar já tinha chamado o hugo junto ao pé da árvore na calçada.
Mas por um acidente do destino estava ali.
A cabeça confusa não conseguia distinguir a diferença entre aquele lugar e qualquer outro boteco da moda de Ipanema.
Estava à procura de um sonrisal que fosse, e um copo d’água que fizesse o pozinho borbulhar.
Logo que entrou viu na prateleira aquilo que buscava. A estante mais parecia um balcão de farmácia: engov, eno, leite de magnésia, aspirina. Até uma réstia de camisinhas desbotadas tinha.
O olhar delirante passou batido em direção ao banheiro. Tinha que dar uma cagada e colocar para fora aquilo que me confundia o seu estômago.
A porta sem tranca mostrava o vaso sanitário todo respingado de merda, e as paredes repletas de inscrições, todas banais, de baixo calão.
Nessas horas o sujeito não consegue perceber a higiene. É a necessidade, o sufoco, o aperto da barriga, ou da bexiga querendo urinar.
O primeiro movimento saiu pela boca. Um vômito meio esverdeado de um fígado cambaleante. Depois veio o bolo de mignon digerido com vinho, uma merda fedida, mole e nojenta.
A entrada, no que passou pelo balcão até chegar ao quartinho pediu ao dono do estabelecimento alguma coisa que parecesse papel.
Nem precisava ser macio como a neve, bastava apenas que cumprisse a função. Quando moleque pobre de subúrbio cansou de usar a folha do caderno da escola, aplicando a técnica de amassar antes. Passou no cú a tinta do jornal com a notícia da sacanagem dos caras com a flotilha da liberdade. Não sabia por que, mas o nojo que sentiu pelo noticiário era maior do que o que sentia pelo vaso sanitário
Com o rabo velho limpo foi logo procurando pela descarga. Não queria deixar nenhum vestígio da sua passagem por ali. Gritou ao dono do boteco perguntando "onde ficava a descarga" e este lhe respondeu dizendo que mais tarde jogaria uma lata d’água para limpar a fedentina.
Estava se sentindo um sórdido bebum, caído na sarjeta, envolto em cheiros e perfumes os mais desagradáveis, percebendo naquele momento a miséria de qualquer cachaceiro de rua.
Mas se sentiu satisfeito ao completar aquilo que fora fazer ali.
Depois do copo de água borbulhante com aquele santo remédio foi aos poucos voltando a normalidade, louco de vontade de beber uma gelada. Pediu uma que, sem lhe negar, desceu redonda como o slogan que a propaganda lhe deu.
Com a cabeça no lugar teve a idéia de retribuir o favor, como se não fosse uma obrigação da lei manter um bar com um banheiro decente.
Do sujeito atrás do balcão ouviu a resposta que lhe pagasse apenas o que devia. Na certa ele não era o primeiro a derramar o porre pelo seu chão, ressaqueado.
Mas como não era daqueles que se submete a trama insistiu, perguntando o que havia para comer, além das defuntas coxinhas.
Veio a surpresa. O cara lhe trouxe um prato de um suculento mocotó, repleto do que sobrara do almoço, acompanhado por uma garrafa de farinha, o qual derrubou na hora.
"Divina comida!" exclamou As colheradas quentes aquecidas pelas gotas do molho ardido de pimenta foram descendo, e se acomodando como uma luva em cada tripa da sua barriga.
Bem, para não ficar encompridando a história digo que ele pagou a conta antes de repetir, bebendo o último copo de cerveja, a terceira garrafa que matava, já intimo do lugar.
Ainda no táxi sentiu de novo a sensação, a revolução, desta vez causada pelo mocotó barato de um boteco vulgar.
Mas ai, Inês já estava morta, e envolvido no conforto do seu apartamento, pijama trocado adormeceu tranqüilamente tendo a certeza de que o guincho da seguradora rebocaria o carro, e o deixaria cara limpa na garagem a espera da sua próxima bebedeira.